Voltaire disse algo sobre o otimismo que não consigo lembrar direito. Era sarcástico, claro. Pois bem, aqui estou eu, quatro vezes nos EUA, e ainda acredito que da próxima tudo corre melhor. Desta vez éramos três casais em busca de experiências inesquecíveis. Conseguimos. Apenas não da forma que imaginávamos.
A rota era clara no mapa mental: Nova York, Las Vegas, Utah, Los Angeles, Miami. Um itinerário típico de brasileiro que quer curtir tudo ao mesmo tempo. O que poderia dar errado?
NYC: a matemática criativa do "consumível"
Nova York de noite é hipnotizante. As ruas brilham de forma quase irreal, promessas em neon de experiências que justificam qualquer preço. Foi aí que encontramos a Little Sister, um clube que, em uma noite estratégica, pareceu ser exatamente o que procurávamos.
A conta inicial veio modesta. Algo como quatrocentos dólares para seis pessoas. Razoável, considerando o lugar. Mas então, aquele charme manhoso dos garçons começou seu trabalho. Cada rodada que pedíamos era uma nova surpresa. Drinks que miraculosamente custavam mais caro do que descrito. Garrafas de champanhe que "apareceram" na mesa sem que pedíssemos. A matemática se tornou criativa, surpreendentemente criativa.
Quando a noite terminou, aquela conta inicial havia transmutado em cinco mil e setecentos dólares. Cinco. Mil. E. Setecentos. Foi uma lição cara sobre a subjacente economia das boates de táxi dance disfarçadas, onde você aprende que "consumível" é um conceito muito mais amplo do que imaginava. O TAO Group, proprietário do lugar, conhece bem essa matemática fluida.
Las Vegas: futuro dirige sozinho
De Nova York para Las Vegas com a ilusão de recuperação emocional e financeira. Pelo menos a paisagem do deserto é honesta em sua aridez.
Em Vegas, decidimos alugar um Tesla Model 3. A visão futurista nos seduziu. Um carro que dirige sozinho? Claro, vamos testar isso. O Full Self-Driving (FSD) prometia autonomia. E entregou. Talvez demais. O carro confidentemente nos levou por rotas que só faziam sentido dentro de sua mente digital, em ritmo próprio, com confiança inabalável em decisões que nos deixaram incrédulos.
Num momento de desatenção em um estacionamento de outlet, descobrimos que o carro havia sido aberto e xingado de coisas. Deixamos a bolsa dela dentro. Panicaremos depois sobre isso. Por enquanto, decidimos usar a criatividade tecnológica e ativamos um AirTag que estava rastreando nossas malas. Surpreendentemente, o sinal nos guiou em uma verdadeira odisseia até o Caesars Palace.
Lá chegados, procuramos a polícia local. Ela, porém, estava em outro estado mental. Distante. Desinteressada. Não havia tempo para a história de um turista brasileiro com um AirTag e um Tesla questionável. O passaporte dela estava roubado também. Planos mudaram radicalmente.
LA virou a parada obrigatória de emergência.
Los Angeles: a trégua ensolarada
Quando tudo cai aos pedaços, California oferece, pelo menos, um bom cenário para o desastre. O sol de Los Angeles é terapêutico. Não resolve nada, mas melhora bastante a perspectiva.
Tínhamos dias não planejados. Então aproveitamos. Santa Monica em um final de tarde, com aquele pôr do sol que não se sente real até estar ali. Praias vazias nos horários certos. Cafés onde ninguém nos pergunta sobre contas de boate ou carros roubados.
Uma noite fomos a um blues bar. Músicos que tocam como se estivessem contando histórias de tristeza e ressurreição. Aquilo ressoou. Nós também éramos uma história de tristeza e ressurreição naquele momento, só que com menos talento musical.
Los Angeles foi o respiro. A pausa numa novela que se recusava a virar comédia.
Miami: o festival da porta que abre e fecha
Miami era suposto ser o final apoteótico. O ponto de repouso antes de voltar ao Brasil. A vida tinha outros planos.
O primeiro voo foi cancelado. Tudo bem, essas coisas acontecem. O segundo voo também foi cancelado. Hmm, começou a ficar suspeito. Terceiro voo? Cancelado. Quarto? Sim, cancelado também. Quinta tentativa? Você já adivinhou.
Cada cancelamento era uma porta que abria e fechava em nosso rosto. Cada porta eram mais duas noites de hotel. Cada noite de hotel era uma equação emocional diferente. Frustração crescente. Saudade do Brasil crescendo na mesma velocidade. A sensação de estar preso num aeroporto que respira, onde você é, simultaneamente, livre e aprisionado.
Eventualmente, conseguimos sair. Não da forma que esperávamos, mas saímos. De volta ao Brasil, onde pelo menos os perrengues têm sotaque familiar.
Voltaire tinha razão sobre o otimismo, suponho. Mas se há uma coisa que essa jornada me ensinou, é que otimismo e pessimismo são apenas dois lados da mesma moeda que você joga ao partir. Os EUA, em toda sua complexidade e beleza, garantem que aquela moeda continue rodando.
E sim, voltaria. Provavelmente numa quinta vez. Porque, aparentemente, sou mais otimista do que Voltaire.